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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Psicólogos contribuem para um mundo sem regras, porque acham tudo normal ?

Esse mito, ou essa idéia, é bastante complexa, e portanto merece mais atenção ao ser tratada. Primeiro precisamos entender algumas coisas.

Como determinar o que é normal?

O que é normal muda conforme o tempo:

A idéia de normal e anormal não é uma coisa estática. Ou seja, uma coisa normal não é sempre normal e uma coisa anormal não é sempre anormal.  Essa idéia vai mudando com o tempo. Basta olharmos nossa própria história e ver como os costumes mudam ao passar dos anos.

Alguns anos atrás os homens tinha sempre a premissa de cortejar as mulheres, ou seja, eles tomavam a iniciativa de tentar algo com elas. Haviam os namorinhos de portão, a relação quase sempre iniciava no namoro com vistas para o casamento. Para esse momento, seguiam-se alguns rituais como pedir a mão da moça em casamento para os pais, precisar provar que era um bom moço (de boa família e trabalhador), e o sexo apenas após o casamento era observado como uma virtude de ambos os pombinhos. Isso era o comportamento normal.

Hoje em dia, qualquer pessoa nos anos 1980 e posteriores, sabe que existem novos modos de relacionamento (ficar, por exemplo), modelos diferentes de compromisso, e as moças não dependem tanto mais da aprovação dos pais para casarem-se, de modo que muitos daqueles rituais não existem mais. O sexo é menos um tabu e mais um comportamento visto como normal entre não casados, com exceções de algumas alas que conservam o tradicionalismo por motivos religiosos.  Portanto, ao longo do tempo, a sociedade foi mudando, e o que era comportamento normal à alguns anos atrás hoje é visto como resquício de romantismo de décadas passadas.

As mulheres no mercado de trabalho são outro excelente exemplo. Antes as moças eram educadas para serem donas de casa, saberem cozinhar e serem modelos de esposas submissas que deveriam ser ajudantes de seus maridos quando estes chegavam cansados do trabalho, e o sexo do casal era prioritariamente para render prazer ao homem, cabendo às mulheres a função de servidão neste quesito. Uma mulher com estas características era considerada normal, para não dizer exemplar. As mulheres que fugiam disso, rebeldes.

Hoje as vemos conquistando o mercado de trabalho, cada vez mais consolidadas. Existem profissões em que elas são maioria, e sabemos cientificamente de algumas qualidades tipicamente femininas que as fazem serem melhores que qualquer homem em algumas funções, como as que exigem motricidade fina, por exemplo, em linhas de produção com peças pequenas que exigem mais habilidade e menos força, ou em áreas que exigem da pessoa fazer várias coisas ao mesmo tempo, como telefonistas e secretárias, bem como administradoras. Além da habilidade de lidarem com jornada dupla, como o trabalho e o cuidado com os filhos.

Com o advento da pílula anticoncepcional, as mulheres passaram na prática e simbologicamente a ter mais controle sobre sua própria vida sexual, deixando de serem serventes dos homens. Agora elas não precisavam mais fazer sexo apenas para fins de procriação e podiam aproveitar a prática para seu próprio prazer também.

Portanto, a mulher de décadas atrás e a mulher atual seguem padrões diferentes, e anormal passa a ser essa mulher de antigamente, vista hoje como “amélia”, ou “dependente do marido”. Estamos observando um tempo de mudanças, em que pessoalmente acredito ser feliz e benéfica, pois equilibra a balança dos direitos entre seres humanos e derruba um pouco mais o machismo.
Portanto, como você pode ver, através de dois exemplos simples, conforme passa o tempo, a idéia de normal e anormal vai mudando junto.

O que é normal muda conforme o lugar e a cultura:

Não apenas o tempo, mas a geografia do lugar, o local, e a cultura tornam diferentes o que é normal. Observemos por exemplo as características típicas dos japoneses, de sempre dedicarem-se ao máximo no que fazem e o quanto se cobram pelos resultados. Nós, ocidentais, facilmente poderíamos vê-los como perfeccionistas, mas eles poderiam nos ver como descompromissados. É a diferença do olhar, do que é considerado normal. Mais próximo de nós, podemos ver a diferença dos habitantes das grandes cidades e dos habitantes do campo. Não é diferente? Ora, o habitante do campo tem em seu cotidiano atividades diferentes, necessidades diferentes, experiências e crenças em geral diferentes. 

Os índios, ou os nativos africanos, ou ainda os aborígenes australianos, todos possuem costumes diferentes que podem parecer bizarros aos nossos olhos. Se um deles nos visitassem em uma de nossas grandes cidades, poderíamos facilmente achá-los loucos, ou anormais. Mas onde eles vivem, em seu meio, nós é que somos anormais. Nossas roupas é que seriam curiosas para eles, nosso desapego pela natureza é que seria ofensiva para eles, e não o costume o de algumas tribos de índios de abandonar crianças com deficiências.

É a diferença dos seres humanos. E nunca funciona quando julgamos uma cultura diferente pelo olhar da nossa própria, isso tende a gerar sempre o preconceito. É uma premissa da Antropologia que deve ser assimilada pelos psicólogos que quiserem verdadeiramente estudar o comportamento humano.

O que é normal muda conforme as circunstâncias:

Pensemos agora num país que acaba de entrar em guerra na época da Segunda Guerra Mundial.  Antes os habitantes que podiam andar livremente nas ruas, precisam estar prontos a esconderem-se no subsolo e a lutar por sua nação. Alguém que ande nessa época despreocupadamente pelas ruas ou que não demonstre apreensão pela situação provavelmente seria taxado de louco, anormal.

Ou pensemos na aterrorizante possibilidade de uma epidemia em larga escala de alguma doença que seja transmitida pelo contato físico.  Veríamos rapidamente pessoas lavando as mãos com uma frequência muito maior e evitando locais com muita gente. Qualquer pessoa que não conhecesse a circunstância estaria propenso a imaginar que as pessoas estão ficando obsessivas com a própria higiene. No entanto, a circunstância motivou tal comportamento.

Há casos, extremos como nos exemplos que citei, ou muito mais cotidianos, em que uma circunstância motiva a mudança de comportamento das pessoas e com isso a idéia de normal começa a variar também.

A violência urbana e a criminalidade, por exemplo, não nos dão um quê paranóico muito grande? Fechamo-nos em grades, com alarmes, alguns com carros blindados, e algumas pessoas chegam a evitar saírem de casa para compromissos sociais. Estamos ficando loucos, somos anormais? Não, somos produto de uma circunstância diferente, e se uma pessoa morar numa casa sem muros e cheia de vidro num bairro conhecidamente perigoso, não será ela que chamaremos de anormal?

Então, como se define o que é normal?

Com todas essas variações - e elas estão ligadas entre elas - não há um modo de definir o que é normal que seja satisfatório e justo. Ou se tentássemos, precisaríamos mudar nossa idéia a todo momento, e apenas tratar e oferecer nossos serviços a seres humanos minimamente parecidos conosco. Ou então, seríamos como grupos tradicionalistas que consideram o normal como imutável, e veríamos assustados as mudanças do mundo como sempre sendo coisas ruins, ou quem sabe sairíamos numa cruzada querendo mostrar como “nosso jeito de viver” é o certo e porque todos deveriam ser como nós. Isso não ajudaria a Psicologia em absolutamente nada, e nos tornaria julgadores conservacionistas, e não cientistas do comportamento humano.

Normalidade como força da maioria e como uma definição social

No entanto, a sociedade humana desde sempre teve uma definição do que é normal ou anormal. E como ela faz isso?

Na maioria daz vezes, quem define a normalidade é a maioria. Se num dado país a maioria da população considera um “jeito de ser” como normal, qualquer pessoa que saia desse jeito, automaticamente está no campo do anormal. E não funciona apenas com maioria numérica, ou seja, número de pessoas. Funciona também com grupos, que mesmo tendo menos pessoas, detém o poder de ditar as regras.

À alguns anos atrás, vimos a triste história do Apartheid, em que uma minoria branca oprimia a maioria negra na África do Sul, por considerá-los inferiores, portanto, fora da linha de normalidade em que eles próprios julgavam estar. Felizmente, isso acabou e hoje o país tenta se erguer como uma nação democrática, mas o exemplo pode ser visto em vários outros momentos históricos da humanidade.

A normalidade é definida socialmente. É uma construção da sociedade que muda, mas a cada momento em que alguém foge a essa construção, é taxado de anormal. Portanto, enquanto psicólogos, não acreditamos que tratar de normal e anormal nos ajude em algo, e portanto não usamos essas definições de forma científica.

Hoje em dia quase não se vê ninguém apontar um deficiente físico e chamá-lo de anormal. É com infelicidade que uso o “quase”, mas felizmente estamos aprendendo a mudar alguns conceitos e ver que a taxação de anormal fere as pessoas. Por vezes torna-se ainda mais nocivo que o próprio problema delas, como no caso do preconceito aos portadores de HIV.

Se estamos aprendendo isso, porque continuamos livremente chamando de anormais pessoas que possuem transtornos mentais ? Porque achamos que uma deficiência física merece nosso respeito e um problema mental não merece? Porque tantas pessoas morrem de vergonha de admitir que possuem algum problema de ordem psicológica mais do que teriam de admitir que possuem algum problema de ordem física?

Por essas contradições tristes que a humanidade ainda possui, precisamos mudar nossa atuação, e trabalhar com normal e anormal simplesmente não é eficiente para ajudar alguém.

Adaptação ao ambiente e circunstância:

A Psicologia funciona melhor quando trabalha com a questão da adaptação ao meio em que a pessoa vive. Quando falo de meio, falo da cultura em que ela está inserida, das atividades que ela exerce, e como ela lida com tudo isso que rodeia sua vida.

Vamos a um exemplo mais prático. Imagine que João que é um civil, e está vivendo num país que está em guerra, e de repente se veja a todo momento num tiroteio. Se ele tiver uma reação de pânico para manter sua própria vida, correr, tiver todos os sintomas de ansiedade, chorar, ou ficar paralisado em algum canto, ele está apenas tendo a reação que eu ou você teríamos, pois ele não tem treinamento para se defender de uma situação dessas e está querendo fugir do risco de morte.

Agora imagine José, que mora no terceiro andar de um prédio em um país estável que não está em guerra e sente-se aterrorizado toda vez que precisa pegar um elevador, a ponto de ter um ataque de pânico enquanto está dentro dele. Ora, um elevador não oferece a princípio um nível de risco para causar essa reação. Mas ele sente-se desse modo. A princípio estaríamos inclinados a dizer que se trata de um fóbico.

 No entanto, toda vez que José precisa sair de casa, ele tem a opção de descer pelas escadas e evitar a fonte de seu medo, o elevador. José conseguiu portanto adaptar-se à sua situação, ao seu meio, de modo que agora ele sempre utiliza as escadas e ter medo do elevador não causa prejuízos em sua vida a ponto de precisar de ajuda de um profissional, assim como utilizar as escadas não causa prejuízo a outras pessoas com quem convive ou divide o condomínio. É provável que José tenha uma fobia relacionada ao elevador sim, mas ele encontrou um modo de viver com isso satisfatoriamente. Portanto, está adaptado à vida que leva e ao seu meio, mesmo com sua provável fobia.

Agora imagine outra situação, em que José não mora no terceiro andar de um apartamento. Ele mora no trigésimo andar de seu apartamento, e trabalha num prédio cujo escritório fica no quinquagésimo andar. Ele teria que descer 30 níveis de escada todos os dias, e subir outros 50 apenas chegar no seu ambiente de trabalho. A partir do momento que isso se torna insuportável para José, causando prejuízos a sua vida, ele não está mais adaptado ao seu meio, e por isso ele passa a procurar ajuda profissional. Tem medo de precisar mudar-se para uma casa e perder seu emprego. Com isso, por causa de sua fobia, sua família toda precisaria ser realocada. Agora sim temos o quadro de alguém que precisa de ajuda, pois o problema afeta a ele e as pessoas próximas de modo que cause prejuízos.

Como você pode ver, sabemos que uma pessoa está adaptada ou desadaptada, quando problemas começam a surgir em sua vida de modo a lhe causar prejuízos e/ou a outras pessoas. Quando usamos os tratados de diagnóstico, como a CID-10 e o DSM-4, todos eles citam como critério para diagnosticar o fato de a pessoa precisar relatar que o problema lhe causa sofrimento e/ou causa sofrimento a outros.

É preciso ainda diferenciar a linha tênue entre sofrimento e incômodo. Em geral, diferenças causam incômodo, como no caso de pessoas que possuem opinião diferente da maioria. Se não tomarmos esse cuidado, podemos nos pegar tratando pessoas que por suas opiniões causam incômodos aos outros. Ou você nunca viu alguém ser chamado de louco ou mandado procurar um psicólogo simplesmente porque emitiu uma opinião divergente da maioria?

 A liberdade do ser humano deve ser tomada como algo sempre a ser respeitado pela Psicologia, e a constituição de nosso país garante a liberdade de opinião e igualdade de direitos entre os cidadãos, por mais que na prática não funcione sempre assim.

Portanto um casal homossexual que mostre afeto em público não é um caso a ser tratado, porque um casal heterossexual que fizesse a mesma coisa também não seria. No caso de fazerem sexo no meio da rua, tanto o casal hétero como o casal homossexual estaria entrando no crime de atentado ao pudor, e se isso for um a atitude recorrente, provavelmente ambos precisariam de ajuda. O fiel da balança não é a orientação sexual, e sim o comportamento e sua adaptação ao meio (nesse caso, o nível inapropriado de demonstração do afeto em público)

Óbvio que pelas crenças cristalizadas de nossa sociedade isso poderia provocar incômodos em quem assistisse a cena do simples afeto no caso do casal homossexual, mas gerar incômodo não é motivo pertinente para dizer que uma pessoa está desadaptada, e portanto, precise de ajuda.

Assim como fumantes. É claro que estão provocando malefícios ao seu organismo, mas se isso não causa prejuízo a outros (saber fumar sem tornar os outros como fumantes passivos, por exemplo), e o próprio indivíduo o faz porque gosta e conhece os riscos, o problema é inteiramente dele. No caso de um fumante pedir ajuda da Psicologia para deixar de fumar, aí sim, passará a ser problema nosso também e iremos tratá-lo no sentido de ajudá-lo a cumprir seu objetivo, pois o tabagismo trata-se de uma adicção, que pode ser tratada com ajuda dos métodos da Psicologia.

Se um homossexual pedir ajuda para lidar com os problemas de sua sexualidade, ou seja, sua orientação sexual lhe causa sofrimentos, iremos ajudar no sentido de fazê-lo se conhecer e aceitar-se ou conhecer-se como tal, amenizando o sofrimento, mas nunca iremos tratá-lo para deixar de ser homossexual, por mais que alguns psicólogos já tenham manchado nosso nome com tal atitude reprovável e ilícita anteriormente, pois isso é completamente vedado pelas leis de nossos Conselhos. Assim como trataríamos um heterossexual que peça ajuda para lidar com problemas em sua sexualidade, da mesma forma. Mais uma vez, orientação sexual não é o fiel da balança para a Psicologia.

Portanto respondendo àquela pergunta do início, nós não achamos tudo normal, simplesmente porque não trabalhamos com essa idéia.

E quanto menos utilizarmos esse tipo de classificação, melhor será para apagar essa imagem errônea que o grande público pode ter de nós. De forma alguma contribuímos para um mundo sem regras, já que o que fazemos é exatamente respeitar a liberdade individual e tratar cada pessoa como única, ajudando a superar seus problemas, sempre dentro das leis estabelecidas.

Casos complicados, nem tanto:


Há casos mais complicados que em geral são usados como argumento pelos defensores dessa idéia. Como por exemplo nos perguntar se consideramos os pedófilos pessoas normais. Ora, se uma pessoa possuir predileção sexual por menores de idade e sabendo que é crime e prejudicial dar vazão a esse desejo, conseguir suprimí-lo, é possível que sequer um dia saibamos que essa possui possui essa preferência.

Mas se suprimir esse desejo lhe causa sofrimento, ele precisa de ajuda e estará desadaptado. Se, pior ainda, cometer o ato de pedofilia por causa dessa predileção, causará prejuízos à vítima e a si mesmo, precisando ainda mais ser ajudado, e estando completamente desadaptado ao meio, pois terá cometido um ato que atenta contra a lei e o direito das crianças e adolescentes, além do que esse caso não ficaria apenas nos domínios da Psicologia ou Psiquiatria, mas seria também de ordem criminal.

O que buscamos, portanto, é o equilíbrio. Para podermos ajudar as pessoas que precisam ser ajudadas, respeitando sua liberdade e, ao contrário do que alguns possam pensar, contribuir para um mundo melhor. Cada caso é pensado individualmente, e não parte do achismo. Parte de nossa formação e da orientação de nosso código de ética.

A moralidade não cabe à ciência. Definir certo e errado é como tentar definir normal e anormal, ou bom e mau. A famoso raciocínio polarizado, ou seja, ou é bom ou é mau, ou é normal ou é anormal, é por demais simplista para uma ciência humana. Muitas outras coisas precisam ser analisadas e consideradas.

À Psicologia cabe usar seus conhecimentos para ajudar cada pessoa como ela é, com todas as suas diferenças e circustâncias - e variações que existem por causa disso-  tentando ajudá-las a ter uma vida com qualidade, adaptada ao meio em que está inserida, dentro de nossas leis, mesmo que com todas as suas particularidades preservadas.

Se gostamos do que fazemos e temos carinho pela Psicologia, devemos tratá-la como tal, e isso inclui esclarecer certas imagens equivocadas que se formam, por vezes devido a nossa própria culpa. A Psicologia não deve ficar numa redoma de vidro ou taxada de arte, alheia às pessoas. Não somos artistas, somos cientistas e profissionais que devemos informar o grande público e usar o que temos pelo bem da sociedade.



Andre Borghi

Psicólogos não podem ir a bares, à baladas ou sair para onde possam encontrar seus pacientes na noite?

Em nossa profissão, há psicólogos que defendem o comportamento de evitar locais em que possam ser encontrados por seus pacientes, na esperança de defender uma imagem ideal de profissionalismo. E há aqueles que acreditam que isso é um tabu sem necessidade.

Eu faço parte do segundo grupo. Volto a frisar que somos seres humanos, que no ambiente de trabalho somos profissionais. Assim, o psicólogo clínico deve evitar algumas coisas em seu consultório e momento de trabalho, como o psicólogo organizacional deve evitar algumas coisas em seu ambiente de trabalho. Mas fora dele, somos pessoas que temos direito a lazer, e a fazer o que gostamos de fazer. Isso é válido para qualquer profissão e para qualquer ser humano.

Policiais, por exemplo, são impedidos de ingerir bebidas alcoólicas quando estão em serviço. Mas quando estão de folga, não há nada que os impeça de tomar sua cervejinha, afinal, não estão de serviço.
No mundo de hoje, é quase impossível que um psicólogo consiga imaginar onde pode encontrar seus pacientes, e com isso evitá-los.

 Ao sair para uma balada, uma danceteria, um barzinho que seja, não há como saber com certeza quem estará lá. E na realidade, encontrar pacientes em locais como esse não deveria ser um problema. Primeiro que fora do consultório, seu paciente também é um ser humano que pode viver como bem entende, ele não é naquele momento seu paciente. Ele é quando está nas sessões. E você não é seu psicólogo, você é quando está trabalhando. Ali, caso se encontrem em um bar, por exemplo, são duas pessoas que tem uma relação de serviço, mas que são simplesmente pessoas. Podem se cumprimentar, conversar, como quaisquer duas pessoas fariam.
O paciente solicita os serviços do psicólogo para ser ajudada em algo, e não para dar-lhe satisfações de tudo de sua vida, da mesma forma que o psicólogo é solicitado para agir profissionalmente, e não precisa dar satisfações de sua própria vida pessoal. Os encontros casuais não afetam em nada o tratamento quando a relação é bem estabelecida entre ambos nas sessões.

Nós próprios sabemos como é saudável que a vida tenha várias facetas. O momento do trabalho, o momento da família, o momento do lazer, o momento do descanso. Se nós próprios agirmos como se respirássemos 24h a Psicologia e tivermos um comportamento demasiado rígido para ter uma imagem imaculada, estaremos na verdade projetando uma imagem contrária aquilo que nós mesmos costumamos sugerir aos pacientes.




Andre Borghi

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Psicólogos irão tentar fazer você mudar de religião?

Símbolos do
 Cristianismo

A mesma frase que encerra o mito da homossexualidade, é válida para este. A escolha da orientação religiosa de uma pessoa é seu direito garantido pela Constituição Brasileira, faz parte de suas liberdades pessoais e não deve sofrer intervenção de nenhum profissional de Psicologia.

Buda, símbolo
do Budismo
Num país múltipla cultura como o Brasil, embora de maioria cristã e direcionamento quase não-laico nesse sentido, é muito comum que um profissional de saúde mental tenha que lidar com o que representa a diferença de suas próprias crenças.

Símbolo do
 Islamismo
De fato, psicólogos são treinados a atenderem pessoas de toda variedade cultural e religiosa, buscando ajudar seus pacientes sem induzi-los a uma religião específica, ou incentivá-lo a retirar-se de uma. As crenças pessoais de um indivíduo fazem parte dele como um todo, é o que faz cada pessoa ser quem ela é, e as crenças religiosas ou mesmo a ausência delas (ateus) estão inclusas, e devem ser respeitadas, segundo as resoluções próprias da profissão.

Cena representando orixás,
 da Umbanda
Se uma pessoa estiver em tratamento e durante este resolver converter-se para uma religião, ou retirar-se de uma, deve ser claro e transparente que essa decisão partiu tão somente da própria pessoa, e nunca como uma sugestão ou indução de seu terapeuta, e menos ainda como parte do tratamento.

Nunca é demais repetir, pois aspectos religiosos não são técnicas científicas e não podem ser utilizados como tal por profissionais de Psicologia. A escolha religiosa de cada indivíduo, portanto, diz respeito apenas a ele na relação entre paciente e psicólogo.
Estrela da Davi, símbolo
do Judaísmo

Shiva, um dos deuses
 do Hinduísmo
Complicações dessa questão normalmente são vistas quando os psicólogos deixam que sua própria orientação religiosa interfira em seu profissionalismo. No entanto, temos suficiente formação e treinamento para sabermos lidar com a separação desses dois aspectos.

 Um bom psicólogo que seja cristão, deve saber tratar respeitosa e profissionalmente um paciente que seja budista, por exemplo, e essas diferenças não devem ser fatores relevantes de prejuízo na condução do treinamento, se for feito corretamente e dentro da ética.
Representação de um xamã indígena,
da tribo americana Sioux

Se um psicólogo, portanto, sugeriu que você abandone sua fé pelo seu bem, ou que ao contrário, deveria aderir a alguma outra ou mesmo a dele próprio, saiba que isso não deveria ter sido feito.












Andre Borghi

Psicólogos tratam homossexualidade ?

Psicólogos não tratam homossexualidade simplesmente porque ela não é uma doença. Não é vista dessa forma pela Psicologia, e é oficialmente considerada como orientação sexual pela Organização Mundial da Saúde, o que fez com caísse em desuso a palavra homossexualismo, já que o sufixo “ismo”, na área de saúde, geralmente é usado para doenças.

Essa é a forma pela qual a ciência trata a questão, embora infelizmente outros círculos , como algumas religiões e culturas, ainda considere por uma questão de crença que a homossexualidade seja uma doença, e portanto, algo curável. É considerada crime em alguns países direcionados por crenças fundamentalistas.

Que não é uma doença ou desvio de comportamento já sabemos. Mas pesquisas na área vêm demonstrando que a orientação sexual não é uma escolha propriamente dita, mas que existe uma determinação genética, de funcionamento físico inclusive passando pelo mecanismo de feromônios e diferenças cerebrais. Quando se diz na Psicologia do Desenvolvimento que a tríade da personalidade é formada na adolescência, e com ela a orientação sexual seria “definida” nessa época, podemos estar confundindo com uma “descoberta”. Nesse sentido, pelo que a ciência vem encontrando ultimamente, em determinado momento a pessoa não se torna homossexual, mas na verdade toma consciência de sua orientação sexual, já previamente influenciada. As pressões sociais e a pressão advinda da própria pessoa, na dificuldade de admitir pertencer a uma minoria que costuma ser alvo de preconceito, poderiam atrasar, ou por meio de negação, complicar essa tomada de consciência, no vocabulário popular, “sair do armário”.

Isto é, confirmando essas evidências atuais, tratar uma pessoa homossexual para que deixe de sê-lo não tem apenas implicações éticas, no sentindo de afrontar a liberdade pessoal de um indivíduo, como seria completamente ineficaz, com consequências ruins a própria pessoa. Algo como tratar uma pessoa negra para ser branca, ou vice-versa, ou seja, além de expor inutilmente a pessoa a procedimentos inúteis e anti-éticos, não faz o menor sentido.

As afirmações insistentes de “patologizar” uma orientação sexual parte somente de questões culturais, definidas por mecanismos sociais, não encontrando nenhuma justificativa científica.
Aos psicólogos, portanto, é totalmente vedado qualquer tratamento que considere a homossexualidade como doença a ser tratada.

Recentemente, uma psicóloga chamada Rozângela Justino, foi punida com ato de censura pública pelo Conselho Federal de Psicologia, por promover e defender psicoterapias que conseguiriam, segundo ela, reverter a homossexualidade para comportamento heterossexual.

A psicóloga, que é ligada a igrejas evangélicas e provavelmente não soube separar corretamente suas crenças pessoais de seu exercício profissional e científico, pode ainda ter seu registro cassado. A notícia é de conhecimento popular pela imprensa e pode ser verificada por simples buscas na internet.

Segundo a fonte do Correio Braziliense, “Pesa contra Rozangela Justino a acusação de ter desrespeitado uma resolução do Conselho Federal de Psicologia, baixada em 22 de março de 1999, numerada como 1/99. Essa norma, que deve nortear o exercício da profissão, diz que “a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”. O parágrafo único da resolução destaca que “os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”.

Atos como esse infelizmente ainda podem ser cometidos por profissionais que não respeitam as próprias resoluções de seu código de ética da profissão, e freqüentemente misturam o que aprenderam na faculdade como ciência para sua atuação, com aquilo que acreditam pessoalmente em termos culturais, religiosos e pessoais. Repetindo: não há fundamentação científica para afirmar que o comportamento homossexual seja patológico ou que apenas o comportamento heterossexual seja o correto.

Há algum tempo, usava-se o argumento de que apenas a espécie humana apresentava comportamento sexual, não sendo encontrado nenhum análogo no reino animal, e que portanto tal conduta viria de “erros” na complexa personalidade humana, e nunca com uma base puramente biológica. O argumento hoje é obsoleto, tendo em vista que o comportamento sexual é verificado em diversas espécies animais, em muitos casos servindo de mecanismos da evolução da espécie, por mais contraditório que possa parecer.

Muito  menos ainda existem indícios que uma “psicoterapia” dessa natureza seja efetiva. A única base para tal afirmação é religiosa, e portanto não compete à Psicologia tal forma de “tratamento”.
A liberdade individual de cada indivíduo deve ser respeitada durante qualquer serviço ministrado por um psicólogo. 


Fontes para notícia:






Andre Borghi


terça-feira, 26 de outubro de 2010

Psicólogos cobram caro apenas para ouvir você falar?

E se você pensa dessa forma, também deve ser perguntar porque deveria pagar a alguém desconhecido para lhe ouvir, se seu amigo ou sua amiga fará a mesma coisa sem cobrar nada, e ainda por cima te conhece muito bem.

É uma pergunta lógica, mas esconde alguns equívocos. Em primeiro lugar, nenhum psicólogo atenderá ou tratará você da maneira que um amigo faria. Não somos formados ou treinados para sermos amigos. Os procedimentos são diferentes, existem técnicas específicas, e conhecimentos que vieram de pesquisas científicas e resultados comprovados ao longo de anos de existência da Psicologia.

É bom ter amigos dispostos a ouvir e aconselhar, isso é extremamente saudável, mas eles não farão por você o que um psicólogo faria, assim como um psicólogo não fará o que um amigo faria por você. Cada um tem seu espaço e sua importância.

Uma das diferenças está exatamente no fator “não conhecer”. Se você tiver um problema e procurar um psicólogo, ele começará a conhecê-lo a partir da primeira sessão. Com isso, ele poderá te ajudar com o que ele sabe sem nenhum laço afetivo muito forte ou comprometimento emocional que possa distorcer a forma dele pensar sobre sua situação.

A amizade, em geral, cria um laço muito bonito entre as pessoas, e as torna próximas. Assim, é provável que seu amigo ou amiga já o conheça a muito tempo, saiba de antemão coisas sobre você, mas justamente isso pode contaminar a forma dele pensar na hora de falar com você. É importante, mas não é um tratamento.

Layout muito usado pela
Psicologia Cognitiva-comportamental
Imaginemos que você tenha acabado um relacionamento, e tenha se sentido muito mal com isso, e vá se “consultar” com um amigo. A tendência é que ele tente te colocar prá cima, a defendê-lo independente do que ocorreu, a falar aquilo que ele acredita que lhe fará bem. Isso é bom e agradável, mas nem sempre ajuda. Se você estiver precisando de uma orientação profissional, precisa de um espaço para pensar criticamente o que você está fazendo, não apenas o que fez de certo, mas o que fez de errado também. Não apenas ganhar elogios, mas pensar se seu comportamento está sendo bom para você e quais responsabilidades você tem sobre o que ocorre com você.

Por isso, são duas formas diferentes de lidar. Não estou dizendo que ao procurar um psicólogo ele apenas irá te maltratar e te fazer sentir mal. Não é isso. Estou dizendo que a forma com que ele irá lidar com você, será mais profissional, centrada, visando lhe permitir superar o problema, sem que emoções estejam direcionadas a você. Seu amigo se importa com você porque ele gosta muito e tem toda uma história com você, seu psicólogo se importa porque é um profissional e seu trabalho é esse, e isso permitirá menos distorções no modo de compreender sua situação.

Exatamente por esse motivo somos impedidos de atender pessoas que tenham muita proximidade conosco, como parentes e amigos próximos. Há até mesmos professores que evitam atender seus próprios alunos de faculdade, acreditando que o tratamento não daria tão certo.

Atendimento infantil
Outra coisa importante é que não ficamos apenas ouvindo por uma hora. Enquanto ouvimos, tentamos compreender, conversamos com um objetivo estabelecido, e alguns, como os cognitivos, anotam coisas importantes para aterem-se a elas e para que você veja o que você mesmo disse e possa refletir sobre isso. Após o paciente sair do consultório, a sessão dele acabou, mas não a nossa. Ainda estudaremos a situação, pensaremos nas próximas sessões e em formas de melhor ajudar o paciente. São partes do trabalho que de fato não são vistas pelos usuários de nossos serviços, mas que existem. Em média, para cada uma hora semanal de um paciente, usamos várias outras direcionadas a ele para um melhor tratamento, e muitas vezes ele não sabe disso.

Layout utilizado por algumas linhas da
Psicanálise, com a presença do divã
Apenas para exemplificar, um paciente que faça um teste Rorschach, por exemplo, pode demorar em média uma ou duas sessões para completá-lo, no entanto, o trabalho conseqüente do terapeuta para conseguir o resultado pode chegar a um dia inteiro de trabalho.

Claro que ainda existem algumas linhagens e formas de condução onde o psicólogo parece ficar totalmente inerte frente a um monólogo do paciente, mas além delas estarem caindo em desuso, não significa que a análise posterior do material não confira trabalho a ele.

Portanto, não se preocupe, você não joga seu dinheiro fora quando solicita os serviços de um psicólogo, e se acredita que isso está ocorrendo, é seu direito procurar outro profissional que melhor lhe atenda.





Andre Borghi

Depressão é frescura e falta de vontade de se curar?



Esse é um mito, talvez dos mais perigosos, porque faz as pessoas não levarem a Depressão a sério, e faz com que aqueles que sofrem com ela, também sofram com o preconceito. Se é frescura e falta de vontade, então elas não estão realmente doentes, mas preguiçosas e reclamonas.

No entanto, não é nada disso. A Depressão é um Transtorno do Humor, uma doença séria que não ocorre por frescura. A pessoa que sofre depressão tem um desequilíbrio químico no cérebro, produzindo menos de alguns hormônios, como serotonina, ou utilizando-os de forma incorreta. Somado a isso, normalmente há alguma situação que desencadeia a doença e coloca a pessoa numa circunstância, que se não levada a sério, pode piorar e mesmo causar a morte.

É uma doença que possui uma predisposição biológica, ou seja, a pessoa tem um funcionamento (normalmente esse desequilíbrio químico) que faz com ela tenha muitas chances de ter depressão, e que é acionada quando algo ocorre. Se a depressão fosse um revólver, a predisposição seria a munição. Se sua arma está carregada, ela tem mais chances de atirar. Quando se apertar o gatilho, que é alguma situação da vida da pessoa, a arma dá o tiro. Seguindo essa analogia, é assim que a Depressão se instala.

A Depressão modifica a forma de pensar e analisar os fatos da pessoa, portanto os argumentos que julgamos simples e racionais simplesmente não irão funcionar. Alguns depressivos chegam mesmo a pensar em se matar, o que chamamos de ideação suicida. Esses são os casos mais sérios e precisam de emergência no atendimento psiquiátrico.

É uma doença tão séria que requer cuidados de psiquiatras, psicólogos e outros profissionais em um esforço conjunto para ajudar a pessoa. Dizer a uma pessoa com depressão para que saia dessa  deprê, supere os problemas, veja como a vida é bonita, que ela não devia se dar ao luxo de reclamar tanto em um mundo tão difícil, são coisas que não ajudam, não surtem efeito e podem piorar a situação, tornando a pessoa irritada ou fazendo-a se sentir culpada por não conseguir “melhorar” através de métodos tão simples.

Ao invés disso, diga-lhe que há profissionais que podem ajudá-la, e se for o caso, encaminhe-a. Com certeza ajudará muito mais.


Andre Borghi

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Os testes das Revistas do tipo Capricho são testes de Psicologia?

Apesar de essa resposta tirar a graça de umas das maiores atrações desse tipo de revista, é necessário dizer a verdade. Não são testes de Psicologia, e se fossem, não poderiam estar lá. Se são e estão, é porque não possuem mais validade científica.

O motivo é simples. Por lei, todo e qualquer teste da área de Psicologia pode ser aplicado apenas por um psicólogo, ou nas faculdades, por estudantes para treinamento, e supervisionados por um psicólogo. São instrumentos exclusivos de quem é psicólogo, da mesma forma que a prescrição médica é um instrumento exclusivo dos médicos. Todo esse cuidado é para que o funcionamento dos testes seja apenas de nosso conhecimento, e com isso, consigamos preservar os resultados que ele produz.

Vamos imaginar uma situação : João, 25 anos, vai passar por um teste de HTP, que é um teste muito utilizado para nos ajudar a entender melhor a pessoa, onde a pessoa é solicitada a fazer alguns desenhos. Mas preocupado com o que pode ocorrer, ele recorre a um familiar, também psicólogo, que lhe ensina como deve fazer o desenho, o que deve evitar, e o que não deve esquecer, para que o resultado saia “melhor”. É claro que quando João for fazer o teste, o resultado será prejudicado, pois não vai corresponder à realidade dele. Isso seria o falseamento de um resultado, e só tende a atrapalhar o tratamento.

Alguns testes de Psicologia podem parecer fáceis de fazer na visão dos pacientes e clientes, mas requerem um conhecimento próprio depois para serem avaliados e interpretados, e aí sim termos um resultado. Não basta aplicar o teste, tem que saber como corrigi-lo e o que fazer com o resultado produzido. Por isso pertence apenas a quem dedicou-se a estudar sua estrutura e possui o conhecimento para todas as etapas deles, que no caso, são os psicólogos.

Então, temos todo o cuidado para que ninguém que não seja psicólogo tenha acesso a esses detalhes, nem conheça de que forma esse teste é interpretado. Colocá-lo numa revista pode até não ensinar como ele é feito, mas fará com que muitas pessoas tenham acesso desnecessário a ele, produzam resultados que elas mesmas não saberão lidar e acabe por retirar a validade cientifica do teste. Além do que nenhum psicólogo o estará aplicando.

Nosso Conselho constantemente fiscaliza e estuda tantos os novos testes como os já existentes, para que haja o cuidado de saber se eles ainda funcionam como devem. Aqueles que são considerados tendo validade, é porque funcionam.


Então se você fez um “teste” em algumas dessas revistas, no máximo era um questionário ou uma brincadeira, que divertida e atrai leitores, mas não era um teste psicológico válido.





 Andre Borghi.

Eu não preciso tomar remédios se eu estiver me tratando com psicólogos ?



Se você estiver em tratamento com um psicólogo, e um psiquiatra tiver receitado remédios, saiba que uma coisa não anula a outra, a não ser casos muito especiais que certamente serão informados a você.

Na verdade, as pesquisas recentes na área de saúde mental demonstram que a soma de psicoterapia e tratamento com remédios, ou seja, a aliança entre um psicólogo e um psiquiatra, tende a ter resultados muito melhores do que uma ou outra coisa sozinha para a gigantesca maioria das patologias mentais.

É perigoso ao paciente parar por conta própria de tomar um remédio psiquiátrico. O psiquiatra é quem deve acompanhar e orientá-lo na melhor forma, e caso o remédio esteja causando efeitos colaterais indesejáveis, cabe ao paciente conversar com seu médico para que ele verifique se não há outro remédio que possa ser menos inconveniente. Mas nunca deve iniciar ou parar um tratamento medicamentoso por conta própria.

Também não cabe a um psicólogo desautorizar a prescrição de um psiquiatra, e vice-versa. Cada um deve respeitar sua área. É muito melhor a ambos os profissionais, e melhor ainda ao paciente, que conversem entre si caso haja discórdia ou visões diferentes sobre a situação. Isso é conhecido como multidisciplinaridade, quando profissionais de diferentes áreas se unem pelo bem de seus pacientes, e não entram em uma briga de poder por ele.

Há distúrbios e problemas específicos que precisam do acompanhamento de um psiquiatra, e se couber ao psicólogo explicar ao paciente a importância disso, bem como tranqüilizá-lo frente a vários medos que as pessoas possuem da Psiquiatria (outra área de ciência que sofre bastante com crenças equivocadas), terá ajudado muito o processo de tratamento.



Andre Borghi

Os testes psicológicos são fáceis de aplicar e estão sempre certos ?



Para se aplicar um teste psicológico, seja na clínica, seja na área organizacional, na educacional, seja em qual área da Psicologia for, o psicólogo precisa saber porque está aplicando esse teste. Ou seja, não se aplica só porque é divertido, ou porque parece bonito, ou porque pode dar mais credibilidade. Aplica-se porque é preciso.

Testes são auxiliares de diagnóstico, sendo que alguns deles podem ser aplicados coletivamente. Quando um psicólogo precisa realizar um diagnóstico, ou mesmo simplesmente conhecer melhor seu paciente, além do histórico e daquilo que lhe foi dito, os testes podem ser usados para ajudar nesse processo. Ou seja, é apenas uma das várias ferramentes a serem utilizadas. Portanto, a primeira questão é se o teste é de fato necessário.

Existe uma diversidade de testes, para várias finalidades diferentes. Dos testes projetivos muito utilizados pelo pessoal de Psicanálise, aos inventários e testes cognitivos, muito utilizados pelo pessoal de TCC. Portanto, depois de definir que a pessoa precisa passar por um teste para melhor elaborar um trabalho com ela, a próxima questão é qual teste mais adequado para aquela pessoa e para a finalidade que se pretende com ela.

Portanto, existem pessoas que odeiam desenhar, e nesse caso talvez seja contraprodutivo aplicar um HTP. Ou se você precisa detectar situações neurológicas mais específicas, talvez seja melhor aplicar um Bender. Se quer apenas avaliar níveis de ansiedade e depressão, os inventários de Beck podem ser mais indicados. Dependendo do que ser quer detectar, e qual o tipo de paciente você tem a sua frente, escolhe-se esse ou aquele teste.

A seguir, é preciso mencionar algo que pode lhe parecer óbvio: é necessário saber aplicar e interpretar corretamente os resultados deste teste. De fato é óbvio, mas não tanto para vários colegas de profissão que não atentam para os pormenores dessa questão, ou para profissionais de outras áreas que insistem em aplicar testes para os quais não foram suficientemente treinados. Uma aplicação errada do teste pode interferir diretamente no resultado final do teste.

Por exemplo, para todos os testes aplicados, é necessário adaptar o ambiente e torná-lo adequado à pessoa que irá realizar o teste. Vou usar um exemplo clássico que inúmeras pessoas já passaram, que se trata dos testes psicotécnicos para se conseguir uma carteira de habilitação para dirigir. Lá existem vários testes, mas dois deles devem sobressair em sua memória, um de atenção concentrada em que você precisava definir uma sequência lógica, e outro em que fazia “pauzinhos” em sequência, chamado Palográfico.

Agora imagine que enquanto você realiza esses testes, há crianças fazendo barulho do lado de fora da sala, que não é adequadamente protegida dos sons externos, ou que a luz acima da sua cabeça fica piscando porque tem defeito, ou ainda o psicólogo resolve atender em alto e bom som seu celular. Que tal então uma parede cheia de anúncios e cartazes, no caso de você ser uma pessoa que se distrai facilmente. Em qualquer dessas situações, acha que se sairía tão bem em ambos os testes, do que se sairía se estivesse num ambiente silencioso, sem coisas que desviem sua atenção, com boa luminosidade e temperatura agradável?

Com certeza haveria uma diferença, por isso é importante preparar o ambiente. Imaginemos agora uma situação em que você vai realizar um teste e o psicólogo não lhe explica corretamente como você deve proceder, ou ele não possui boa dicção, e você quando pede para repetir as instruções, ele se nega. Como você realizará um bom teste?

Portanto, além de preparar o ambiente, o psicólogo que for aplicar o teste precisa estar inteirado das instruções para saber explicar ao seu paciente de modo que ele entenda completamente antes de iniciar o teste. Se for necessário explicar novamente, deve explicar.

E ao longo do teste, precisa saber seguir suas etapas de modo correto. O teste de Rorschach, por exemplo, é simples para quem realiza, mas exige do profissional uma séria de atenção a detalhes para ser registrado enquanto ele é feito. Se ele errar nesses momentos, pode interferir no resultado final.
Então como você deve estar percebendo, antes de aplicar um teste o psicólogo deve considerar várias coisas:

- Necessidade: porque preciso aplicar esse teste?
- Finalidade: o que quero com esse teste?
- Adequação para objetivo: qual teste é o mais apropriado para o que quero avaliar?
- Adequação para paciente(s): qual teste é o mais adequado para meu(s) paciente(s)?
- Capacidade de aplicação: Sei aplicar corretamente esse teste em todas as suas fases?
- Capacidade de lidar com o resultado: Agora que consegui aplicar e tenho o resultado, sei como proceder com ele?

Essa última reflexão é das mais importantes. Como dito anteriormente, os testes são uma tecnologia fantástica da Psicologia, que muito nos ajuda, mas são auxiliares no processo de diagnóstico. Significa que eles sozinhos não definem nada, mas ajudam, juntamente com outras técnicas, a se chegar a uma conclusão.

O psicólogo clínico, a partir daí, irá estudar seus resultados em conjunto com o que obteve nas sessões, na anamnese (história do paciente), na observação de seu comportamento. Assim também irá agir o psicólogo organizacional, ao selecionar candidatos para uma vaga de emprego, por exemplo, considerando não apenas o teste, mas a entrevista e o currículo.

Se o resultado de um teste for diferente do que se vinha pensando com as outras técnicas, é um bom momento para repensar o diagnóstico. Talvez seja preciso refazer o teste, ou aplicar outro semelhante, ou rever a entrevista e a anamnese. O teste é feito para nos ajudar a pensar, mas ele sozinho não irá definir nada. São como os exames que o  médico clínico geral pede, vários deles para comparar os resultados, com o que você diz, e juntar tudo isso para tentar identificar seu problema.

Importante ainda lembrar, que mesmo o diagnóstico conseguido, bonitinho, coerente, não é fechado. Se ao longo do tratamento novas evidências surgirem de que o problema é outro, a todo momento o psicólogo poderá rever o que pensava anteriormente.


Andre Borghi.

Livros de auto-ajuda e esotéricos funcionam da mesma forma que Psicologia

“ Eu não preciso de psicólogos se ler um bom livro de auto-ajuda”
Best Seller de auto-ajuda


E talvez não precise mesmo, se o livro for capaz de ajudar você no que você queria. No entanto, ao falar desse mito, meu objetivo não é menosprezar os autores de auto-ajuda, mas deixar claro que Psicologia não é auto-ajuda, e vice-versa.

Eu não serei prepotente, como infelizmente alguns colegas de profissão às vezes deixam entender, de dizer que a Psicologia dá conta de tudo é o único tratamento válido que pretende substituir os demais. Não é. Pessoas podem encontrar alento, alívio e resposta para seus problemas nas religiões, em conversas triviais, na yoga e mesmo em livros, e numa outra infinidade de outras atividades, como também em nossos serviços. A escolha é de cada ser humano ao buscar ajuda, e não somos os únicos que podemos ajudá-los.

Há pessoas que resolvem seus problemas lendo a bíblia, outras lendo o Corão, outras lendo os Vedas hindus, outras nem precisam ler livros sagrados para religiões, há pessoas que encontram respostas lendo “Quem roubou meu queijo”.

Contudo, de vez em quando entramos em livrarias e encontramos aqueles livros de auto-ajuda e mesmo livros exotéricos e/ou religiosos na sessão de Psicologia, e isso infelizmente contribui para que as pessoas confundam as coisas. Há autores que são psicólogos, e alguns muito famosos e lidos, que utilizam teorias científicas da área para validar suas crenças pessoais, dando-lhe uma roupagem científica, quando na verdade uma coisa é crença religiosa e outra coisa é ciência. Cada uma com sua importância, mas ambas bem demarcadas.

A Psicologia ainda hoje sofre com um ar de esoterismo na imagem que o grande público tem dela, enquanto por muitos anos seus estudiosos têm tentado mantê-la como uma ciência humana. Esse esforço será inútil se nós mesmos continuarmos tratanto a Psicologia como “arte”, ou como um amontoado de quaisquer coisas que possam ser feitas. Se ela é uma ciência, e queremos ser respeitados como tal, então devemos tratá-la como ciência.

Livro "O Segredo", exemplar de pensamento mágico.
Portanto, a Psicologia não produz livros psicografados (escritos ou ditados por pessoas já falecidas), livros como “O Segredo”, que estimulam as pessoas a acharem que basta desejar as coisas para obtê-las (algo que em Psicologia chamamos de "pensamento mágico") e não produz livros de auto-ajuda, que ensinam que o pensamento positivo - ele sozinho - permite resolver as coisas.  Produz, sim, livros específicos que podem ajudar pessoas a se familiarizarem e lidarem com problemas com base nas pesquisas em Psicologia e com aval científico. 

Enquanto profissionais, não conduzimos tratamentos apenas pedido a alguém que leia um livro, e portanto, se assim fizéssemos, seríamos relapsos e incompletos. Ler um livro, informar-se, pensar positivamente sobre as coisas, tudo isso contribui para a melhoria dos problemas, mas em nossa prática, isso são técnicas que fazem parte de uma engrenagem maior. E que deve sempre ter um fundamento científico.

Para exemplificar, não se trata uma pessoa que esteja depressiva fazendo-a ler "O Segredo". Trata-se de forma científica, com as psicoterapias cabíveis a ela, e em conjunto com a farmacologia prescrita por um psiquiatra. Se a pessoa por vontade própria quiser ler um livro de auto-ajuda nesse processo porque pensa que lhe fará bem, ela tem a inteira liberdade para fazê-lo. Mas seu psicólogo tem como dever agir cientifica e eticamente com seu paciente.

Portanto, sempre algo bom e válido pode ser tirado de um bom livro, seja ele qual for, mas tenha em mente que livros de auto-ajuda não são livros de Psicologia, e o que fazemos nos consultórios e em nossa produção literária, não é auto-ajuda.

Andre Borghi

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Psicólogos podem prescrever remédios?


De forma alguma. A prescrição de remédios psiquiátricos é de exclusividade dos médicos, e sobretudo dos psiquiatras. Ele possui o estudo e o conhecimento para receitar o melhor remédio para cada situação que peça um remédio. E sugerimos fortemente que seja sempre por um médico psiquiatra, que é o especialista nessa área, pois comumente clínicos gerais e outras especialidades receitam remédios como ansiolíticos e antidepressivos, sem ter o mesmo corpo de conhecimento da Psiquiatria.
Aos psicólogos cabem outras técnicas de tratamento, que também são exclusivas dele, como a psicoterapia e o uso de testes psicológicos.
Caso algum psicólogo receite remédios, principalmente os de tarja preta, pelo seu próprio bem e por uma questão de ética, você pode a qualquer momento denunciá-lo para o Conselho Regional de Psicologia, pois essa é uma prática que além de impedida pelos conselhos de Psicologia, constitui exercício ilegal da Medicina, passível de punição por lei.
Se algum deles prescrever remédios que não precisam de prescrição médica, como fitoterápicos e calmantes naturais, chás e compostos orgânicos, fique atento. O profissional de Psicologia não precisa utilizar-se de tais métodos.

Andre Borghi

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Psicólogos não estão te analisando todo o tempo

Outro mito muito parecido com a adivinhação de pensamentos. E esse erro parte metade por uma crença popular sobre o que é “analisar”, e metade por nossa própria culpa, dos psicólogos.

Em primeiro lugar, nem todos os psicólogos analisam seus pacientes, isso depende de qual abordagem esse ou aquele utiliza, normalmente é mais utilizada como técnica pelos psicólogos de base ou inspiração psicanalítica. A própria palavra analisar normalmente é confundida com diagnosticar. Assim as pessoas tanto possuem medo de que os profissionais de Psicologia saiam analisando seus problemas, como que saiam dando doenças para elas.

No entanto, tanto a análise daqueles que utilizam essa técnica, quando o diagnóstico, nunca é possível em uma conversa trivial. Se você encontrar um psicólogo na rua e conversar com ele, ele pode até tentar analisar, mas não conseguirá muita coisa. Se você conversar com um deles pelo MSN e contar seus problemas, ele pode tentar entender qual patologia você tem, se tiver, mas não terá certeza e não poderá portanto dar um diagnóstico.

Isso acontece porque tanto a análise quanto o diagnóstico são coisas complexas feitas pelos psicólogos. Elas precisam de tempo, de várias perguntas, de um local apropriado que normalmente é um consultório. Não pode ser feito brincando e rapidinho numa conversa na rua. 

Apesar de o Conselho Federal de Psicologia atualmente permitir as consultas via internet, eu particularmente não confio ainda na eficácia desse modo de atuar, pois não conta com a presença física da pessoa. Como vimos no primeiro mito da adivinhação de pensamentos, os gestos, o tom de voz, as expressões faciais, são coisas muito importantes, e mesmo uma câmera (webcam) não substituirá a experiência de estar cara a cara com o paciente.

Como visto, psicólogos não estarão te analisando se você não estiver em tratamento com eles. Se você conheceu alguém que fez isso, conheceu alguém que apenas brincou de analisar.

Isso pode ter um motivo simples, e é aí que entra nossa própria culpa. Na faculdade, há determinadas matérias que são empolgantes por si mesmas, como o estudo das patologias mentais (Psicopatologia), os testes, os comportamentos esperados, os tipos de personalidade, e tudo isso acaba empolgando os estudantes, que podem se pegar diagnosticando e analisando pessoas, seus amigos e até mesmo seus parentes. Isso é normal, ainda são estudantes e estão admirados com os novos conhecimentos que obtiveram, e talvez ainda não tenham aprendido a utilizá-los de modo adequado socialmente. É como uma forma de treinamento meio grosseiro, que por um lado ajuda na aprendizagem, mas por outro pode irritar as pessoas, que acabam servindo de cobaias. Esse tipo de comportamento não é incentivado na formação, muito pelo contrário, mas sabemos que ocorre.

No entanto, uma vez formados, psicólogos devem agir ainda mais rigidamente em relação a ética de sua profissão do que os estudantes. Agora não precisam mais estar empolgados, já passaram pelos estágios, e devem saber usar com sabedoria o que aprenderam.

Então se você conheceu alguém que te analisou sem que você tivesse solicitado seus serviços ou sequer uma opinião, e você se ofendeu com isso, tenha em mente que essa pessoa representa uma minoria, que isso não é apropriado em nossa profissão e caso queira, lembre-o que em sua formação foi dito para que evitasse tal comportamento. Ele certamente se lembrará ;-)

Andre Borghi